Você conhece o livro “Memórias de um doente dos nervos”, de Daniel Paul Schreber?

Na autobiografia, escrita em 1903, o jurista narra o desencadeamento do seu próprio processo paranoico. Em seu texto, demonstra um olhar diferenciado, que o distancia daquele que era compreendido pela psiquiatria da época a respeito do delírio psicótico, fornecendo assim uma importante contribuição ao entendimento da psicose e da construção delirante. Ao tomar conhecimento dessas memórias em 1911, Freud transformou-as em objeto de seu estudo existentes sobre a psicose.

Schreber provinha de uma família de burgueses e protestantes da Alemanha. Formado em Direito, passou mais de treze anos de sua vida preso em sanatórios psiquiátricos. Sua primeira internação aconteceu após perder uma eleição pelo Partido Nacional Liberal. Não foi o cidadão exemplar previsto por seu pai, mas alcançou a imortalidade que os Schreber sempre almejaram: tornou-se o louco mais famoso da história da psiquiatria e, devido à leitura freudiana, também da psicanálise.
Seus delírios possuíam dois elementos principais: sua transformação em mulher e sua relação favorecida com Deus. As observações feitas por Freud de suas memórias marcam uma leitura singular do delírio, tomando como seu lugar uma reorganização do mundo subjetivo dos psicóticos e, de modo específico, na paranoia de Schreber.

“E o paranoico constrói-o de novo, não mais esplêndido, é verdade, mas pelo menos de maneira a poder viver nele mais uma vez. Constrói-o com o trabalho de seus delírios. A formação delirante, que presumimos ser o produto patológico, é, na realidade, uma tentativa de restabelecimento, um processo de reconstrução.” 
(Freud, 1911, p. 78, grifo do autor).

Em tempo: o livro acaba de ser reeditado e lançado pela Todavia Livros.

Texto por Mariana Gripp, membra associada da Associação Psicanalítica de Nova Friburgo.

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